terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Homilia da quarta-feira de Cinzas - 2012

Caros irmãos, a liturgia desta Quarta-feira de cinzas nos convida a voltarmos o coração para o Bom Deus. Ele quer purificar nossos corpos e almas, quer nos despojar do velho homem com suas más tendências e elevar-nos à dignidade do novo homem revestido pelo senhorio redentor de Cristo Jesus. É o tempo glorioso de nossa salvação cantado por tantos santos e fiéis que nos precederam, tempo da graça benfazeja que não se limita apenas a querer o bem, mas a procura-lo e fazê-lo pela confiança que o próprio Jesus, Filho do Homem, depositou em nossa humanidade pecadora. Ele quis reconciliar a nossa vida desorientada permanecendo conosco, envolvendo-se pelo estupor de nossas alegrias e o fardo de nossas dificuldades.

Sem Mim nada podeis fazer, já dizia-nos o Senhor (Jo 15, 5c). Esta é a pista para nos exercitarmos nesta quaresma. Quais serão os nossos planos e projetos de pequenos sacrifícios, nosso programa de bons discípulos para estes quarenta dias de penitência e mortificação? Se o pecado é o que deteriora e envelhece a vida do espírito, a juventude da alma, como manter-nos íntegros no seio de uma geração que parece não buscar a Deus, que vive como se Ele não tivesse mais o que falar ao coração do homem e oculta seu rosto como se os laços da ternura divina fossem para ele sua mais terrível prisão? Poderíamos viver bem a nossa liberdade no mundo longe Dele? Escrevia o genial católico Gustavo Corção no ano de 1968 que “os homens de nosso tempo sentem cócegas nos ouvidos e querem procurar programas de uma novidade que eclipse a novidade de Deus. Em vão, em vão procurarão”.

No salmo que rezamos vemos o arrependimento do Rei Davi, eleito de Deus, que praticou o adultério e o crime contra a vida de Urias, como se pudesse estar acima do bem e do mal. Davi violou a justiça, foi o opressor do mais fraco e do sangue inocente de um valoroso oficial de seu exército. Por isso no Miserere ele clama com o coração pungente pela misericórdia divina, empenhando-se com propósitos definidos, para não mais ferir o coração Daquele que o criou e o elegeu. Este salmo de Davi nos ensina que nunca é demasiado tarde para arrepender-se, mas que é sempre necessário aprendermos a vigiar e rezar, para não sermos consumidos pela tentação. Sobre a oração certa vez nossa padroeira Santa Teresa escreveu: “Dizia-me há pouco um grande letrado, que as almas, que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido que, embora tenha pés e mãos, não os podem mexer; e são assim: há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores, que não há remédio nem parece que possam entrar dentro de si mesmas” (Castelo Interior).

Também nós nesta quaresma confessaremos nossos pecados ao sacerdote depois de chorarmos pelo tempo que estivemos longe de sua graça e do seu amor, ainda que não tenhamos cometido culpa gravíssima. Esta atitude de um coração contrito e levado às lagrimas pode ser neste período da quaresma nossa melhor oração. Talvez o pecado tenha tomado forma em nossa vida porque estávamos mergulhados em uma crise qualquer, pelos poucos ou muitos anos de nossa vida, pela fadiga da rotina de cada dia, porque achamos que éramos incompreendidos pelos mais próximos, pela abertura que demos ao individualismo que abriu um poço de egoísmo em nós e ao mundo da sensualidade que provocamos à nossa volta. No entanto, nenhum destes pecados é obstáculo para que Deus Pai nos socorra pela graça da absolvição de seu Filho Jesus na pessoa do sacerdote. Graça única que é capaz de restaurar o que antes era angústia e desamparo, sombra e escuridão, lodo e deserto de chagas fétidas, que nunca foram curadas. Uma nova ordem espiritual então é impressa em nossa alma pelo poder do sacrifício da cruz de Cristo, que brota pela palavra de perdão que o padre profere no confessionário como um rio caudaloso de misericórdia e compaixão sobre o homem com o coração rasgado e humilde e arrependido sinceramente de suas faltas e pecados.

Porém, como iremos apreender o significado da penitência e mortificação? Entendendo que é preciso perder para ganhar. Não podemos ter uma nova mentalidade se não aprendermos a perder o que é desordem em nossa natureza, como o egoísmo, a cobiça, a sensualidade, a ira, a vingança e qualquer mal que assim se apresente ou outra tendência que fira nossa imagem de filho de Deus. Mas como ser este homem novo? Esta pergunta muitos se fizeram e ainda hoje carregam em suas consciências. Na medida em que luto e escolho a Deus no meu presente, vou evitando pouco a pouco a desarmonia que o pecado pode gerar em mim no futuro Sabendo que meu coração não pode se comprometer com pequenas satisfações aparentes e imediatas. Deste modo devo pedir luzes ao Espírito de Jesus Cristo para saber o que é bom e o que é mau e nocivo a minha alma de cristão e reorientar minha vida para preferir as coisas de Deus. Como no dizer de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim” (Gal 2, 20)

Recolhemos dos ensinamentos do Beato João Paulo II sobre a mortificação as seguintes palavras: “Se não soubermos às vezes nos privar do que é lícito não seremos sempre capazes de evitar o ilícito, ou seja, as restrições nos darão o autocontrole necessário para vencer situações de tentação”. Diante deste pensamento do Papa, creio que aqui cabem então algumas considerações: tenho disciplina no comer, no beber, no dormir, no apetite sexual? Se tiver alguma disciplina nestas áreas, depois saberei me defender quando tiver que travar algum combate. Isto significa que devo ajudar a educação do meu próprio corpo também. Ele deve habituar-se a ouvir o meu não lá aonde talvez eu seja mais desregrado e para que eu não caia na embriaguez, gula, sensualidade e preguiça entre outros vícios. Doutro modo posso romper com Deus, caso não haja o mínimo esforço de minha vontade, porque nunca soube dizer não ao meu corpo. Mas precisamos tornar o nosso corpo companheiro de nossa alma nesta aventura espiritual, como ressalta um monge cisterciense, Pe. Luis Alberto Ruas. Buscar esta unidade é o nosso desafio constante e só podemos perseverar nesta busca com a confiança na graça de Deus, não somente através de engenhosa ascese.

A quaresma surge como esta tentativa e possibilidade de nos inscrevermos na academia da vida cristã, onde exercitaremos não apenas o autocontrole sobre o corpo como também o zelo com as coisas do espírito, sem cuidar apenas de um e desmerecendo o outro, antes buscando a unidade de vida, com a devida abertura para as coisas do Alto, o Bem sem fim, o Bem mais perfeito, ou seja, tendendo o nosso coração para o Infinito de Deus. Este é o treinamento e o fortalecimento de nossa vontade mais firme em procurar o que há de melhor para a nossa vida humana, para estarmos já unidos na vida terrena ao Bom Deus, sem atrapalhar a vida da graça que ele hoje e agora quer nos comunicar. Isto supõe que devemos perder a nossa vida em Deus, embora, pela mentalidade reinante, este perder é quase um não possuir nada, o que ainda seria uma fraqueza e insensatez, mas depois, na medida em que vivemos naquilo que é aparente loucura para o mundo, ou seja, a lógica da cruz, ganharíamos o tudo de Deus, como nos revela o doutor místico São João da Cruz, e que expressa também a força do pensamento paulino.

Não esqueçamos igualmente a caridade de nossa esmola, que hoje o evangelista Mateus ressalta em nossa liturgia da palavra, e que encontra eco nas obras de misericórdia que devemos realizar. Para tanto, o que dilata o nosso coração para o outro nosso semelhante é a caridade de Cristo que nos amou primeiro. Saibamos, pois, viver bem o espírito da carta quaresmal do Papa Bento XVI para este ano, extraído de um versículo bíblico tirado da Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e as boas obras” (Heb 10, 24). Sendo o Cristo nosso muito bom pagador e que paga muito sem medida, como dizia Santa Teresa d’Ávila, não buscaremos outra recompensa senão o cultivo da alegria e paz interiores pelo cumprimento de sua vontade.

Eis a nossa bela ginástica na Academia da Vinha do Senhor: viver o tempo quaresmal como tempo contínuo da poda nos ramos de nossa vida com a videira da vida de Cristo. “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em Mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto...” (Jo 15, 1-2). Assim peregrinando aqui na terra, neste santo exercício, buscaremos nossa liberdade desfazendo “as mil malhas do nosso não viver e que nos impedem de viver desde já a nova vida que um dia teremos na clara terra dos ressuscitados”. Que o Senhor, clemente e compassivo, na graça de sua perfeita caridade, no-lo conceda. Amém.

Pe. Silmar Alves Fernandes


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